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  • Este artigo alinha-se com estudos anteriores que avaliam o impacto da obra de J. B. Watson no início do século XX, mas busca superar certos impasses metodológicos que poderiam limitar a interpretação de seus dados, como a ausência de parâmetros comparativos. Com este objetivo, citações de Watson foram comparadas com citações de outros oito relevantes psicólogos, em oito periódicos, na década entre 1924 e 1933. Os resultados desta análise bibliométrica são comparados com dados de estudos pregressos, de modo a complementar, corroborar ou contestar suas conclusões. No período examinado, ainda se observa uma tendência de ampliação do impacto da obra de Watson já verificada ao longo da década imediatamente posterior à publicação do Manifesto Behaviorista (1913). O impacto de Watson continua próximo ao de Dewey e de Titchener, já supera o de Thorndike, segue maior em comparação com Angell, Carr, Cattell e Hall, mas ainda distante em relação a James.

  • Resumo Este artigo tem como objetivo trabalhar com a concepção de “conhecimento encarnado” defendida por Ignácio Martín-Baró, estabelecendo relações entre este conceito e o campo da Psicologia Social. Num primeiro momento, fazemos uma pequena contextualização dos efeitos de uma greve universitária que durou quatro meses, considerando que os principais efeitos que devemos debater são aqueles que estão relacionados às experimentações do espaço educacional, assim como às ressonâncias das narrativas externas ao mundo universitário. Em seguida, mesclamos experiências do cotidiano da universidade com narrativas de diferentes atores sociais sobre a greve e a própria formação, a fim de desenvolver uma teoria analítica das práticas educacionais em Psicologia Social a partir de um diálogo com Ignácio Martín-Baró. Destacamos as três perguntas apresentadas pelo autor para problematizar a história da Psicologia Social: o que nos mantém unidos numa ordem social? O que nos integra à ordem estabelecida? O que nos libera da desordem estabelecida? Entre os diferentes conceitos criados pelo autor, privilegiamos a ideia de conhecimento encarnado, realidade vivida, realidade estudada e ação ideológica.

  • O presente trabalho explora diferentes retratos de Febrônio Índio do Brasil, primeiro réu no Brasil a ser avaliado como inimputável judicialmente, visto ser considerado portador de uma psychopatia constitucional. Para tal, serão discutidas as diferentes historiografias dos dispositivos psiquiátricos, assim como a possibilidade de uma história-construção, na reunião de elementos heterogêneos na composição de um personagem. Desta forma, o artigo explora diferentes documentos redigidos a respeito de Febrônio; tais como seu laudo psiquiátrico, seu processo criminal, seu evangelho As Revelações do Príncipe de Fogo e o escrito do poeta suíço Blaise Cendrars sobre Febrônio. O intuito dessa análise documental é compreender como crime, loucura, raça e sexualidade são articulados na construção de versões sobre o personagem, que variam do louco monstruoso ao profeta. Ao final do texto, esboçamos a noção de dramaturgia criminal enquanto um constructo teórico que aproxima essas narrativas sobre Febrônio do desenvolvimento de personagens no drama.

  • Este artigo apresenta elementos relativos à experimentação da escrita daquilo que chamamos Cartografias Clínicas no escopo da disciplina de Práticas Analítico-Institucionais do curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. São apresentados trechos de escritas produzidas pelos alunos e alunas a partir de situações experienciadas em seus estágios de ênfase em Psicologia Social e Políticas Públicas como um exercício analítico clínico-institucional dos processos de subjetivação envolvidos, incluindo-se nos seus próprios campos de intervenção, possibilitando a reflexão sobre a “feitura de si” enquanto estagiários e estagiárias em ato.  Discute-se a respeito de Clínica, Processos Institucionais, Cartografia e Narratividade.

  • A partir de imersão investigativa sobre os sentidos de carnaval na cidade, o artigo orienta-se para uma abordagem da polissemia do carnaval, em seu sentido histórico-político e na ressonância das imagens de carnaval em vínculos férteis durante o trabalho de investigação. Olhar para o carnaval é, em certa medida, olhar para a história de nossas cidades e dos esforços oficiais de contenção do que nunca será definitivamente governado. O artigo aborda os signos do carnaval que nos mantém conectados com as vozes e os gestos minoritários que inventam a cidade ao se fazerem presentes nela. A cidade, a escrita e o carnaval são os temas que sustentam o argumento do presente artigo.

  • O presente artigo trata de apostar no carnaval como força afirmativa de subjetivação brasileira. Cartografando nossas mazelas históricas e presentes, mas, também e principalmente, nossas experiências estéticas modernas, trata-se, enfim, de localizar essa festa popular como um acontecimento que confronta a diretriz colonial de entristecimento dos trópicos. Para tanto, intercessores como Oswald de Andrade e Caetano Veloso surgem para ajudar a abrir veredas delicadas, inusitadas e singulares diante do grotesco que, de tempos em tempos, grita em nosso país. Sob a ativação dessas experiências estéticas, portanto, ao fim e ao cabo, a intenção maior é de forjar um equipamento ético de desvio da miséria radical em que mais recentemente nos colocamos.

  • “Alegria nas mãos, primavera nos dentes” Aos vinte e dois dias do ano de dois mil e vinte e dois, quingentésimo vigésimo segundo aniversário do baixo começo, o chão de Nhoesembé tremeu. Não pelas forças da Terra, que ali são firmes — do que provém o batismo tardio de Porto Seguro, na Bahia. O que moveu o chão e suspendeu um pouco o céu foi o passo ritmado da marcha cantante dos pataxós, que naquela manhã partiam rumo à capital do estado para o 4º Acampamento dos Povos Indígenas da Bahia, quando trombaram pelo caminho com os preparativos de aparição da comitiva de inimigos oficiais da vida, recém-chegada de Brasília, para participar das mórbidas celebrações em torno dos 522 anos da chegada das caravelas portuguesas a Pindorama. Enquanto a Polícia Federal rondava, engatilhada, as imediações do Marco do Descobrimento, protegendo o palanque ainda vazio, a multidão formada por quinze aldeias indígenas cantarolava em direção à praça. Entre cantos de guerra e exaltações de alegria, um recado soa mais alto: “Pega seu governo genocida e vai embora!”.Tratada pelos jornais e sites de notícia como apenas mais uma imagem invisível destes tempos revirados, o ato Pataxó circula pelas redes sociais em vídeos feitos pelos próprios indígenas, mas também por blogueiros locais, jornalistas e, sem espanto, por apoiadores da máquina genocidária que hoje se atualiza em governo. No mar de imagens que deslizamos na tela dos smartphones, uma parece insistir: à frente da multidão, o cacique Zeca Pataxó (coordenador estadual do Movimento Indígenas da Bahia) afasta com os braços as barreiras instaladas para delimitar o percurso até o palanque.Em segundos, as grades de metal que interditam o contato entre o dentro e o fora do poder são lançadas umas sobre as outras, cedendo ao gesto implacável das mãos Pataxó, desfazendo o frágil alinhamento da barreira sobre o chão. Em impulsos ritmados pelos tambores às suas costas, o corpo do cacique faz passagem para a multidão que avança, alegre, alargando o caminho. “Os índios tão quebrando tudo”, diz um homem que grava o ato, discípulo audiovisual de Caminha, acusando seu próprio modo de ver o mundo. “Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos!”Diante da presença contagiante dos Pataxó, os habitualmente ruidosos apoiadores do fascismo verde-amarelo emudecem, titubeiam, engolindo a poeira da dança. Aos semblantes atordoados do patriotismo cafona, o povo da terra contrapõe sua presença irresistível. Os inimigos, impotentes, se evadem. “Apequenante” como sempre, o chefe de Estado mede seus passos entre amedrontados.O que estas cenas podem nos dizer ultrapassa a mera sucessão das ocorrências. A imagem do Cacique e do seu povo arrebentando a barreira imaginária que os separa do livre movimento implica uma energia política em tudo distinta daquela que preparou o palanque fascista e faz circular as “andanças” do seu porta-voz, angariando engajamento através dessa eficaz algoritmia da tristeza. Ele, que precisa ser visto e ouvido para poder, não interessa aos olhos e ouvidos Pataxó. O ato carnavalesco do povo enlutado não pede que este corpo político apodrecido os escute ou os veja. Exige, ao contrário, que ele vá embora, que se pique!Poder pouco não impede que a multidão saiba muito bem o que pode. Atrapalhar a propaganda da morte com a presença da vida é “ter a força de saber que existe”, como nos lembra certa canção inatual. O gesto dos braços que rompem a ordem mortífera é um lampejo do que nos torna vivos. E olhar para o tempo assim é teimar em sempre poder contar outra história. As grades do corredor presidencial não resistem à alegria dos braços indígenas, porque as mãos Pataxó sorriem para o aço, que recua, se amontoa e diz seu sim metálico. O rosto do Cacique, “tranquilo e infalível”, transmite a alegria de quem não precisa sorrir, pois “entre os dentes segura a primavera”.É preciso ter sido feito da mesma debilidade das grades (do palanque, da história…) para respeitá-las e obedecê-las. Do contrário, testaríamos sua força lançando mão da nossa. Mas o que há nas mãos do Cacique para que ele perceba isso que nos tem escapado? Como inventar, concretamente, nossa própria capacidade de agir, de também fazer fugir o medo e a tristeza? Impulsionados pelo gesto Pataxó, perguntamos: como abrir o presente?            Este livro reúne e combina as forças de cada vida que o teceu (por dentro e por fora das autorias) em meio ao desastre humanitário que nos atinge pandêmica e politicamente. Fruto da articulação do Grupo de Trabalho Políticas da Subjetividade, vinculado à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia, Abrir o presente: inventar mundos, narrar a vida, enfrentar o fascismo entrelaça em suas linhas a composição de uma abertura prospectiva do nosso tempo, interpelando-o através de três vias, a saber: a análise dos processos de subjetivação em meio às políticas neoliberais no campo do trabalho, da educação, da saúde, da assistência social, da cidade, da justiça e dos direitos humanos; experimentações ficcionais, figurativas e fabulativas como aposta para a produção de afetações e deslocamentos sensíveis em processos de subjetivação hegemônicos, a partir de estratégias metodológicas inventivas construídas na singularidade dos seus campos de atuação; e por fim, o acionamento de práticas clínico-políticas atentas aos processos de resistência frente ao conservadorismo e ao acirramento de violências relativas aos marcadores raciais, de gênero, de classe e de privação sensorial e motora. Tarefas enormes, intermináveis, é verdade. Razão pela qual elas precisam de muitas mãos. O livro que se segue é, neste sentido, um convite à cumplicidade que estes pequenos-grandes combates exigem entre nós.Começamos com as mãos de Danichi Mizoguchi, Marcelo Ferreira e Maria Elizabeth Barros de Barros em “Subjetividades e sujeições no fascismo tropical?”, capítulo que aborda o projeto político jamais escamoteado na ocupação da máquina pública federal brasileira: um fascismo tropical. São exaltadas problemáticas do Brasil contemporâneo marcadas por extrema violência estatal para com as dissidências e minorias e pelo enfrentamento negacionista do governo de Jair Bolsonaro em relação à pandemia de Covid-19. Partindo das perguntas: “como enfrentar esse modo de subjetivação tão duradouro na história brasileira e que hoje viceja na cena pública sem qualquer escrúpulo? Como disputar a existência de outros mundos possíveis? Afinal, que outras imagens e que outras vidas ainda podemos inventar?”, os autores e a autora discutem as modulações do microfascismo espraiado como fluxo e tornado modo de vida, tecendo análises de que é preciso sustentar um movimento de revolta. Revolta como disputa na criação de mundos e de modos de produção subjetiva.Em “Contar nossos mortos”, Gabriel Lacerda de Resende trata das políticas de desaparecimento, com destaque àquelas praticadas no Brasil de hoje, indagando: “como contamos nossos mortos?”. Transitando por entre considerações bio e necropolíticas, suas análises abordam a particular conexão entre morte, violência e luto, destacando a importância de narrar as vidas e as mortes, com destaque para aquelas relacionadas aos mais diversos contornos da violência de Estado, tal como expresso em falas do atual presidente brasileiro quanto aos desaparecidos políticos ou às pessoas mortas pela Covid-19. “É tempo de escavar este solo de valas comuns, este solo de que somos filhos. É tempo de buscarmos na solidariedade lutuosa e na força da memória o empuxo para interromper, ainda que por um frágil instante, o curso da barbárie”, diz o autor.As mãos carnavalescas e antropofágicas de Juliana Cecchetti, Eder Amaral e Danichi Hausen Mizoguchi estão juntas no terceiro capítulo. “‘Nunca fomos catequizados. Fizemos foi carnaval’: a vacina antropofágica contra a doença fascista” busca em experiências estéticas brasileiras de cem anos para cá o que chamam de “fagulhas de insurreição”. Do carnaval de 1919 (pós-gripe espanhola) à Semana de Arte Moderna, e desta à Tropicália, ao Teatro Oficina, ao Cinema Novo e tanto mais, o trio revisita o modernismo antropofágico explorando sua potência de invenção de mundos, pela alegria e pela erotização do agir na defesa de um sair da linha, como modo de restaurar a “vacina antropofágica”.Ainda sob os ares da festa, Juliana Cecchetti e Marcelo Santana Ferreira dão as mãos em “Outras doces barbáries: a força dos carnavais na disputa do presente”. Nele, discute-se a inesgotabilidade do sentido do carnaval, explorando-o como potência de uma alegria que revoluciona e a carnavalização na qualidade de força de interrupção da cronologia, tentativa oportuna de se abrigar no tempo intensivo da festa para indicar que se está em luta. Partindo da cena de um Rio de Janeiro de 2021, sem carnaval devido à pandemia de Covid-19, sob a “égide” de uma política genocida e negacionista em que a alegria parece ter sucumbido, a dupla pergunta: “quando o carnaval se recolhe, o que ele ainda tem a nos dizer em relação à viabilidade da vida e da existência em comum que não estão separadas da alegria?”.“Como o discurso de ódio pode prosperar com tal facilidade entre nós? Por que nos é tão difícil compor com a diferença, uma vez que ela é também uma direção estratégica? Como promover outras modulações micropolíticas dos encontros com as diferenças de modo a escapar deste voraz jogo de assimilação pela colonização, fetichização, tokenismo?”. Estas perguntas nos chegam pelas mãos de Vanessa Maurente, Luis Artur Costa e Cleci Maraschin em seus “Ensaios para figurações: Indústria do Gênero e Ilhas dos Afetos”. A partir daí, as autoras e o autor trazem elementos de suas experiências de pesquisa e extensão pelo nucogs (Núcleo de Ecologias e Políticas Cognitivas/UFRGS), onde empregam tecnologias materiais, semióticas e coletivas, promovendo jogos narrativos que tensionem e desloquem as formas normativas hegemônicas que costumam conformar nossas experiências e fazeres com o mundo. São abordadas duas experiências de jogo em particular: A Indústria do Gênero e Ilha dos Afetos, as quais geraram uma estranha experiência familiar com o presente, bem como envolvem a construção coletiva de sentidos sobre afetos e experiências na e com a diferença.“Por uma Clínica do Trabalho antirracista” vem das mãos de Tatiane Oliveira e Fernanda Spanier Amador. Decorrendo da pesquisa de mestrado intitulada Racializar o problema clínico do trabalho: professoras negras e experiência do trabalho como atividade na educação básica, defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional/UFRGS, discute-se aqui a necessidade de racializar as Clínicas do Trabalho. Trata-se de interpelar a dimensão racializada da experiência por entre a história do ofício, a qual permite-nos compreender como o racismo sustenta certos gêneros profissionais. Partindo do conceito de Estilo em Clínica da Atividade, apresenta-se a original formulação das Estilizações Marginais (produzidas no escopo da dissertação em questão), isto é, aquilo que diz das estratégias empregadas pelas docentes negras na direção da expansão do poder de ação no trabalho, uma vez que enfrentam, reiteradamente, o não reconhecimento de sua contribuição ao ofício por parte da branquitude. Argumenta-se pela urgente necessidade de tensionar o campo das Clínicas do Trabalho na direção de um fazer comprometido com uma prática antirracista, comprometido com um fazer clínico que escute, veja e problematize as práticas de violência racista que conformam o cotidiano do trabalho e do próprio ofício.Ainda com as mãos sobre o trabalho, Fabio Hebert, Fernanda Spanier Amador, Jéssica Prudente e Maria Elizabeth Barros de Barros escrevem “Sobre ofício e cosmopolíticas: quando a vida no trabalho se torna defensável?”. Nele são levantados elementos analíticos relativos a como conectar trabalho a uma vida digna de ser vivida. Partindo dos desafios ético, políticos e estéticos, tendo em vista os modos como se têm cuidado do planeta, liga-se a pergunta: “como cuidar do trabalho no presente distópico?.” Levando em conta o recrudescimento dos fascismos e da intensificação precarização do trabalho contemporâneo, analisa-se a gravidade do que se passa com os ofícios no presente. Partindo do argumento de Yves Clot de que a vida precisa ser defensável no e pelo trabalho para que a sua prática opere saúde, trabalhos nos quais a vida não é defensável requer de nós, pessoas que exercemos a Clínica do Trabalho, um posicionamento específico de crítica que não oferte amortecimento do sofrimento, mas que também possa compor com as narrativas e possa operar em outras cosmopolíticas. Por isso reafirma-se a impossibilidade de ofício em certos casos, o que nos mostra uma situação extrema de degradação existencial.“Por uma ética da desobediência para o presente” chega pelas mãos de Jéssica Prudente e Rosimeri de Oliveira Dias. O capítulo trata do desobedecer no tempo presente como um imperativo ético, uma aposta na vida aliançada com a coragem intrínseca aos riscos das modulações do fascismo contemporâneo. Entre essas urgências que as condições de possibilidade do presente engendram, propõe-se dois eixos de análise e de intervenção, pela transversalização de experiências e operação de resistências à aderência fascista que restringe possibilidades de criação e convoca obediência. O primeiro eixo é o da desobediência e o segundo eixo trata da coragem e da alteridade, atravessados pela noção de crítica. Afirma-se uma escrita que se singulariza pelo feminino, escrita por mulheres entre suas práticas na educação e na saúde.Encerramos os trabalhos “Por entre conversas e histórias com povos originários para adiar o fim do mundo”. Feito pelas mãos de Cristiane Bremenkamp Cruz, Fabio Hebert da Silva e Rosimeri de Oliveira Dias. Tecido entre Espírito Santo, Pará e Rio de Janeiro e pela inspiração das Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak (2019) —, o nono e último capítulo traz histórias como forma de enfrentar o presente em companhia dos povos originários. “Como temos sido capazes de afirmar vida em tempos tão sombrios como os que vivemos no presente? Como nos utilizamos desta conexão e interlocução com os povos originários para que elas sustentem uma aposta ético-estética-política de resistência às práticas de individualização? De que modos podemos nos engajar em experimentações coletivas que busquem tecer possibilidades de um futuro aberto à alteridade e sua própria tessitura coletiva e comum? Como explorar conexões com novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar, geradoras de alegria e de solidariedade, enfrentando o modo de produção capitalista e o projeto de eliminação necropolítico que ganha força na contemporaneidade?” são algumas das interrogações das autoras e do autor ao longo do texto.Padecer de Brasil não é coisa que se aguente sozinho. Abrir o presente, sintagma plural e polifônico, nos parece uma maneira direta de cuidar do pensamento e do corpo, de empurrar barreiras entre nós, de abrir passagem e mexer no clima. Cada linha deste livro é um gesto no sentido da restauração do nosso tamanho, isto é, daquilo que alcançamos andando com os pés no sonho. Outono do ano em que voltamos a nos encontrar! Eder Amaral; Fernanda Spanier Amador; Rosimeri de Oliveira Dias

  • Diante de um cenário de catástrofes no qual coabitamos com desigualdades sociais crescentes, poluição, envenenamento por agrotóxicos, esgotamento das fontes, diminuição do volume dos lençóis freáticos, desmonte de políticas públicas e acirramento de processos excludentes, nossa proposta metodológica, inspirada na obra de Ailton Krenak - Ideias para adiar o fim do mundo -, consiste em contar histórias, como forma de enfrentar o presente e forjar saídas em companhia dos povos originários. Há perguntas que funcionam como disparadoras do campo problemático de nossa escrita coletiva: De que modos podemos nos engajar em experimentações coletivas que buscam tecer possibilidades de um futuro aberto à alteridade e sua própria tessitura comum? Buscaremos responder aos chamamentos de povos da terra como pistas que orientam nossa escritura/ação/coletiva, atentando-nos para o imperativo de politizar o cuidado em relação às redes de interdependência que nos constituem.

  • O presente artigo analisou o processo de institucionalização da Supervisão Clínico-Institucional (SCI), ressaltando os principais elementos que a tornam um importante dispositivo de formação e qualificação das práticas de saúde mental, a fim de contribuir com o resgate e a construção da memória deste processo no Brasil. Trata-se de um estudo qualitativo sobre dispositivos de formação em saúde e políticas de escrita/narratividade. Realizou-se uma leitura cuidadosa de documentos governamentais e da produção acadêmica relativa ao tema, os quais foram sistematizados tendo em vista o processo histórico de constituição da SCI como dispositivo de formação. A segunda etapa constitui-se na escrita da narrativa de memórias relacionadas aos encontros da pesquisadora com a SCI no Brasil. A terceira etapa consiste na discussão sobre as contribuições da SCI na construção e consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Conclui-se que a SCI é um dispositivo de formação fundamental na consolidação da RAPS.

  • Desobedecer, no tempo presente, afirma um imperativo ético, uma aposta na vida aliançada com a coragem intrínseca aos riscos das modulações do fascismo contemporâneo. Entre cenas da educação e da saúde, percorreremos a tríade desobediência-coragem-alteridade de maneiras diferentes, implicadas em um certo modo de relação com outros que passa ou não pela produção de práticas de liberdade. Escrita que se realiza entre-duas, no feminino, compondo encontros entre psicologia e educação. A historicização da obediência parece vir acompanhada de um estreitamento de possibilidades e de uma localização específica e assimétrica, se opondo às práticas de liberdade. A tríptica composta por três cenas que abrem este texto, e os três eixos de análise e de intervenção — desobediência, coragem e alteridade — desenha um arco que abriga dispositivos conceituais do filósofo Michel Foucault. Trata-se de uma composição de um quadro geral de análise que aposta na ampliação de estratégias de enfrentamento das práticas sociais.

  • O tema da defesa da vida que se afigura como defensável pelas práticas nos diversos segmentos do cotidiano ganha a tônica de nossas inquietações, especialmente no campo do trabalho. Como cuidar do trabalho é o mote de nossa indagação no presente distópico. É inviável sustentarmos uma gramática colonial, com suas naturalizações de participação, do pressuposto da cisão entre indivíduo/meio, e pensarmos o trabalho sem considerarmos outras cosmopolíticas. Gramática ainda hegemônica e que sustenta lógicas dos processos de trabalho há séculos em nosso país. Fizemos uma opção: olhar a gravidade dos ofícios no presente, criando ferramentas de análise. A ideia de ofício vai ao encontro das cosmopolíticas, pois analisar problemáticas do trabalho contemporâneo implica levar em conta a extrema precarização dos processos de trabalho - da vida. Que vida é defensável? A vida como potência é afirmada quando o trabalho é operador de saúde, do contrário trata-se de necropolítica.

  • Entre os anos de 2018 e 2021, produzimos, no Núcleo de Ecologias e Políticas Cognitivas (NUCOGS) dois jogos: “Indústria do gênero” e “Ilha dos afetos”, buscando provocar breakdowns e contágios sensíveis que desloquem regimes de sensibilidade, dizibilidade, visibilidade de modo a complexificar-singularizar tramas de afetações e romper com políticas narrativas da outridade e do alterocídio. Os jogos operam como figurações para construírem espaços narrativos colaborativos heterotópicos por meio dos quais xs jogadorxs possam estabelecer dispositivos coletivos analíticos que coloquem em cena e problematizemos modos de vivermos juntxs. O artigo desenvolve uma reflexão acerca da potência micropolítica de narrativas e de figurações como dispositivos clínico-políticos e ético-estéticos para transformar o campo de possibilidades de afetar e ser afetado. Discute experiências de criação e realização desses dois jogos que tensionam, produzindo breakdown em nossos regimes normativos para as questões de gênero, raça, sexualidade, deficiências, classe, nacionalidade, entre outras. A proposta é produzir um artigo teórico-empírico que articule os conceitos de figuração e breakdown com a inserção de relatos da construção e uso dos jogos com adultos e crianças.

  • O artigo se propõe a cartografar as linhas de força que compõem a atualidade de nosso fascismo tropical. Assombrados pela dimensão extrema e radical de violência desejante que se apossou da macro e da micropolítica em nosso país em anos recentes, nos interessa atravessar e compreender essa experiência de passagem – suas condições de possibilidade, suas modulações, suas lógicas. Todavia, eticamente, acreditamos que não é possível estancar nessas detecções: é preciso também mapear e criar brechas de resistência subjetivante que ainda e sempre habita nosso campo de possíveis e nosso plano de impossíveis para que, com elas, possamos paradoxalmente reinventar um país que nunca existiu.

  • A presente carta – endereçada a todos aqueles interessados e defensores do movimento da Luta Antimanicomial – é fruto da experiência de pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional/UFES, que buscou conhecer como a cidade de Cariacica-ES acolheu a loucura em seus espaços após a abertura dos portões físicos do antigo Hospital Adauto Botelho. A pesquisa aposta na cidade como via de possibilidade para outras experiências com a loucura que não as de recusa e indiferença. Esta carta convida a experienciar, junto com as histórias narradas e entendendo experiência a partir de Michel Foucault – que explicita que uma experiência é qualquer coisa da qual se sai transformado, no intuito de possibilitar que outras tantas histórias possam ser suscitadas –, histórias de amizade, experimentação, produção de outros possíveis nos espaços da cidade.

  • Este artigo apresenta dados da pesquisa que visou analisar os efeitos da implementação do Apoio Matricial (AM) na saúde do idoso efetuada pelo Centro de Referência de Atendimento ao Idoso (CRAI), situado no município de Vitória/ES, objetivando ofertar retaguarda especializada às questões assistenciais e suporte técnico-pedagógico às equipes de referência. As análises realizadas se pautaram no conceito de Apoio Matricial como tecnologia de gestão. A pesquisa abrangeu o momento que antecedeu a implantação do Apoio Matricial e o período de 05 anos após sua implantação. Os resultados do estudo apontam alterações na descrição dos motivos dos encaminhamentos, contendo dados que expressam a ampliação da clínica e o Apoio Matricial como uma ferramenta potente no cuidado ampliado para a saúde do idoso. Conclui-se que há necessidade de ampliação da rede de cuidados para o idoso, em especial para o idoso em risco de fragilização, e intensificação das ações de apoio matricial para as equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS).

  • Este trabalho objetiva discutir as formas virtuais de memorialização e de luto que se manifestam online na plataforma de mídia social Facebook. Descreve e analisa o “Memorial Facebook”, recurso que possibilita a transformação de perfis pessoais em memoriais virtuais quando do falecimento dos usuários proprietários da conta. Para isso, como metodologia, parte-se de um levantamento bibliográfico da produção nacional sobre o tema, em diálogo com outros autores e autoras que discutem memória, luto e trauma no contexto das plataformas de mídia social online, nomeadamente o Facebook. Busca-se, com isso, repensar a noção de “memorial” no contexto pandêmico da Covid-19, evento que reconfigura os modos de ser e viver. De modo preliminar, verifica-se que as mídias sociais compõem espaços públicos de testemunho, interação e memoração, e que as suas interfaces e configurações sociotécnicas, incluindo sua lógica de mercado, engendram novas formas virtuais de memorialização e ritualização do luto em tempos de distanciamento social.

  • O presente artigo propõe uma discussão no âmbito Clínico do Trabalho indicando que o racismo estrutural está presente na história dos ofícios. Apresenta-se passagens de pesquisa realizada com docentes mulheres negras da educação básica estadual, enfatizando as estratégias das Estilizações Marginais, essas um recurso por elas empregado diante do pacto da branquitude. Propõe-se o debate racial no campo do trabalho visando promover uma Clínica do Trabalho Antirracista.

  • Este artigo pretende discutir e enfrentar um traço particular da necropolítica brasileira: as políticas de desaparecimento. A partir de imagens da pandemia de Covid-19, defende-se que o desprezo do Estado brasileiro e seus representantes pelos mortos é uma marca constitutiva do que somos, numa transversal que vai da colônia à democracia. Convoca-se Clarice Lispector, Walter Benjamin e Judith Butler como aliados em uma política narrativa que sustente o luto público e coletivo no embate contra a barbárie e o esquecimento de nossos mortos.

  • IntroduçãoNa conversa com Heliana, o trato. Eu, que tive um encontro bastante singular com Gregorio, faria algo heterodoxo, seguindo o fluxo do que a própria seção “biografia” da Revista Mnemosine convoca.  A seção “biografia”, inangurada junto da revista, em 2004, é bastante plurívoca e chama a atenção por sua riqueza e versatilidade. De fato, não são cultos à personalidade, mas diversas trajetórias cruzadas, devidamente emaranhadas de historietas e afetos. Verdadeiras análises da implicação, se tomarmos isso como exposição do campo de forças. Histórias de família, de compositores, de militantes, de filósofos medievais, da própria saúde publica, de anônimos artistas encerrados em manicômios, de socioanalistas em suas visitas ao Brasil, do nosso careca mais querido, de atores, de loucos, de cantores, de psicanalistas militantes ousadas e incansáveis e outros tantos queridos e queridas argentino(a)s que habitaram esse pais e emprestaram seus nomes para designar um plano dispersivo de forças nesses artigos.Por seu amigo, mestre e analista, Émílio Rodrigué, Gregorio lhe escreveu uma biografia dos encontros e dos afetos, deixando assim a indicação de como gostaria de ser lembrado. Portanto, desviar dos excessivos personalismos reverentes para acessar a parcialidade do narrador e do narrado. Destarte, deixo o vasto conhecimento da vida e obra de Gregorio para suas próprias palavras e de seus comentadores. “Eu quero ser lembrado como uma pessoa esquecida”, dizia ele em vários momentos, aos mais chegados. Acho importante que o leitor, por motivo de seu falecimento, entre em contato com fragmentos de uma vida. Uma vida e não outra, essa que se singulariza, pelas escolhas, pelo cotidiano de uma tarde de café.[...continua]

  • Este estudo analisa a trajetória de uma mulher vivendo em situação de rua, sob a perspectiva da antropologia, considerando sua história, agenciamentos e saídas encontradas por ela ao longo de mais de 40 anos nessa condição. Trata-se de pesquisa qualitativa fundamentada na Narrativa como abordagem teórico-metodológica de investigação social e da saúde, tendo a análise temática e o processo de redução parafraseado como formas de análise. A pesquisa indicou uma narrativa marcada por violação de direitos, rupturas de laços sociais e institucionais nas categorias Abandono, Adoção e Possessividade; Arranjos para sobrevivência nas ruas; Religiosidade e Processo de Saúde Doença.

Última atualização da base de dados: 23/05/2024 06:04 (UTC)

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